Criticando Antiquarius
Não faço outra coisa na vida a não ser ler, beber, comer e saudar os 200 anos da chegada da Família Real no Rio. Programa, aliás, que cumpro com grande prazer. Tanto que, a bordo do meu carrão, só tenho ouvido Padre José Maurício, o compositor erudito brasileiro que caiu no gosto de D. João. No meu também, Sua Majestade... Mas o que os meus garfinhos têm a ver com D. João e Carlota Joaquina? Ora, pois, tudo! A começar, e terminar, pelo bacalhau, peixe que virou meu prato do dia. E da noite também. Especialmente o bacalhau do Antiquarius. Tudo por conta da Corte. Por essa razão, mesmo ciente de que é pouco original tecer elogios a uma casa mais do que consagrada, resolvi fazer a corte ao Antiquarius. Afinal, nunca estive ali tantas vezes seguidas como nos últimos tempos. E nunca tivera a oportunidade de colocar à prova o serviço e a cozinha com tamanha precisão e assiduidade. A casa reina absoluta. E mais: além do fato de ter culinária portuguesa, está fazendo 31 anos justamente hoje. O cardápio mudou pouco nesse tempo todo. Para os festejos dos 200 anos (eles também aderiram, claro), lançaram Javali à D. Pedro (R$51), bochechas de javali marinadas no vinho (R$61) e coelho à moda da casa (R$61). O Bacalhau Nunca Chega (R$78) continua chegando do mesmo jeito: desfiado e com batata palha, ovos batidos (adoro esse batido) e presunto cru. Os nacos parecem de bacalhau fresco. Sabe por quê? Porque depois da dessalga, leva um banho rápido de leite quente. E o gosto selvagem do arroz que acompanha a perdiz (R$71)? Vem de onde? Também sei: do chá de carqueja em que a ave passa horas marinando. Não sei não, mas pelo andar da carruagem, até o final dos festejos do bicentenário, assumo as panelas dali.
Antiquarius