Criticando Filé de Ouro
Lembro como se fosse hoje meu pai chegando em casa com uma engenhoca em punho que causou frisson nas moças: um cortador de batatas (pois é, eram tempos em que um simples cortador fazia a alegria de uma família!). Mas não era um cortador de batatas qualquer. Suas lâminas reproduziam o xadrez da batata preferida da família, a prussiana, só encontrada nos restaurantes. O tal cortador, de uma simplicidade franciscana, transformou as batatas, sequinhas e douradas (e só valem assim), em marca registrada das Fróes (meu pai não fritava um ovo, daí a concordância no feminino). Há anos não via prussianas nos restaurantes e confesso que havia me esquecido de sua existência até almoçar no Filé de Ouro, na semana passada, e me deparar com elas entre os acompanhamentos. Na verdade, o que mais tem ali é batata: palha, palito, suflê, portuguesa, prussiana, cozida, purê... Fiquei só imaginando o tamanho do cortador da casa... Além de resgatar sabores e lembranças antigas, outra prática ali me remeteu aos velhos tempos: no Filé de Ouro, o cliente pode mexer um pouco em (quase) tudo. No lugar do arroz, dá para sair uma farofinha de ovos? Deu. O molho campanha pode ser substituído pelo alho e óleo? Ganhamos os dois (campanha e alho e óleo), que vieram em potinhos separados. E o troca-troca da portuguesa pela prussiana se deu em fração de segundos. A peça de carne enorme, para duas pessoas (R$90), não exibia qualquer selo de pedigree ou DNA do gado: chegou anônima, espetacular, um contrafilé macio e saborosíssimo, que demos conta com grande desenvoltura. O restaurante, sessentão, passou há tempos por reformas, que descaracterizaram um pouco o seu interior. Mas, justiça seja feita, ficou mais confortável e, principalmente, menos barulhento. A conta chegou sem sustos (cerca de R$140, para dois, com vinho) e acrescida de uma grata informação: o estacionamento no prédio ao lado quem banca é a casa. Feito inédito.
Filé de Ouro