Criticando eñe
Foi um amigo querido (tão querido que quase foi marido), filho de espanhóis e amante do bem comer e beber, quem me ligou avisando: "A adega do eñe tem preciosidades, rótulos que nunca encontrei em nenhum outro lugar do Rio". O moço tinha razão (e olha que nem sempre ele tem): para quem curte vinhos espanhóis, uma investida no restaurante de São Conrado é obrigatória. Além disso, a cozinha da casa é excepcional. Come-se e bebe-se ali o melhor da Espanha. Até desconfio de casas que funcionam sob consultoria de chefs renomados, que comandam as casas de longe. A prática é comum no mundo todo. O nome do francês Alain Ducasse, por exemplo, aparece em duas dezenas de restaurantes mundo afora. Mas são operações difíceis, que podem funcionar ou serem o mais desastroso dos desastres. No caso da filial daqui, felizmente salvaram-se todos, nós e eles. A dupla espanhola Sergio e Javier Torres, com restaurantes em Barcelona e Sampa, mostrou, em um ano de Rio, que o eñe carioca está sob controle. Talvez porque volta e meia os dois estejam na cozinha. Quando não é um, é outro. E ninguém sabe quem é quem. São gêmeos. Entre goles de cava Don Román Brut (R$ 63), do rosado Copa Real (R$ 68), da vinícola Martinéz Bujanda, da região de Castilla La Mancha, e do blanco Pirineos Mesacho (R$ 90), da região de Somontano, nos deliciamos com tartar de vieiras com calda de beterraba (R$ 26), pimientos del piquillo (pimentão típico de Navarra, ligeiramente defumado e recheado com bacalhau, R$ 24) e as adoráveis patatas bravas (batatinhas com recheio picante, R$ 19). Dividimos depois o conchi crujiente, leitãozinho que passa 12 horas no forno, leva um choque térmico e chega à mesa se desmanchando (R$ 56). Entremeamos com um Rioja, o Sierra Cantabria Crianza (R$ 140, mas a carta trazia exemplares bem mais baratos). Valeu o investimento, a noite e, principalmente, escutar um velho amigo. Salud!
eñe