Criticando Estrelato
Impossível entrar no Estrelato, pequenino bar na Travessa dos Tamoios, sem notar a imensa bandeira do Brasil bordada no toldo que protege as mesinhas na calçada em frente. Trata-se de pano de fundo acolhedor para um dos segredos mais bem guardados da Zona Sul: um boteco familiar, com duas décadas de vida, que tem entre seus fiéis frequentadores alguns dos mais refinados músicos da cidade. Terá a descrição despertado alguma lembrança familiar ao leitor que rima música com botequim? Pois então, é isso mesmo: o Estrelato é quase um Bip Bip do Flamengo. Com algumas diferenças, claro: em vez do famoso e temperamental Alfredinho do bar de Copacabana, aqui temos a Lenice, sorridente até em dia de inundação na Marquês de Abrantes. No lugar da cerveja em lata, chope razoável e algumas boas opções gastronômicas, com destaque para o caldinho de feijão temperadíssimo e delicioso, servido em copo americano, e para a picanha na chapa. A semelhança entre os bares fica, é claro, no espírito musical. Se no Bip as rodas rolam quase diariamente, no Estrelato o dia nobre é a segunda-feira, quando uma turma da pesada se reúne para beber e tocar chorinho. Às sextas tem voz e violão. Tudo informal mesmo, armado pelos próprios clientes, que fazem questão de perpetuar o espírito da casa. Como fica embaixo de um edifício residencial, o Estrelato fecha cedo. A música sempre termina às 23h, meia-noite no máximo, quando o choro está bom demais. Quem manda parar é sempre o Zinho, guardião da chopeira e dos bons costumes. Eventualmente, seu humor peculiar lembra até o do Alfredinho. Taí, aliás, mais uma semelhança entre os dois botecos.
Estrelato